terça-feira, 27 de maio de 2008

O OLHO E O ESPÍRITO - de Merleau-Ponty






O autor Merleau-Ponty, criti ca a ciência, pois a forma como ela é concebida na sociedade repercute em todos os campos da atividade humana, de maneira absoluta, descontinua e muitas vezes fria. No decorrer da sua análise Ponty informa que em se tratando de ciência não se pode acreditar em tudo o que ela diz, como verdade incontestável. Ponty afirma que “nunca como hoje, a ciência foi sensível às modas intelectuais. Quando um modelo foi bem sucedido numa ordem de problemas, ela o experi menta em toda a parte”.

Segundo Ponty, o pintor tem o direito de observar os objetos sem o dever de apreciá-los, próximas dele, qualquer palavra de ordem do conhecimento perde sua força, o pintor, é descrito como um ser provido da capacidade de empreender através do olhar e de suas mãos telas que em nada acrescentarão aos anseios dos homens, ele só consegue transformar o mundo em pintura quando emprega o próprio corpo, emprestando-o ao mundo.

“O mundo visível e o mundo dos meus projetos são partes totais do meu ser” com esta afirmativa, Ponty relata a capacidade que temos de estar próximos das coisas que vemos, entretanto, embora tudo que se pode ver esteja perto das pessoas, só se ver o que se olha, pois a visão está associada ao movimento, cada movimento não é ordenado pelo espírito, ele é seqüencial e envolve o amadurecimento da visão.

Quando se refere à palavra imagem Ponty não se limita a dizer que ela é mal reputada, por uma série fatos que se acredita que ela possa ser, entretanto, ao mencionar a citação de Giacometti: ‘o que me interessa em todas as pinturas é a semelhança: isto é, aquilo que me faz descobrir um pouco o mundo exterior’, nota-se o quanto atribui à pintura, a capacidade de expressar o mundo real. Neste sentido, indaga se ha um terceiro olho a visualizar as imagens mentais, pois compara os olhos aos computadores do mundo, que têm o dom do visível, que se atribui pelo exercício de ver.

Segundo Merleau-Ponty, a visão do jovem Berenson é equivocada no sentido de que a pintura não evoca dos valores táteis, como se pode observar:

A pintura não evoca coisa alguma, especialmente o tátil. Ela faz coisa totalmente diferente, quase o inverso: dá existência visível àquilo que a visão profana acredita invisível, faz que não tenhamos necessidade de ‘sentido muscular’ para termos a voluminosidade do mundo. Esta visão devoradora, para além dos ‘dados visuais’, abre para uma textura do ser cujas mensagens sensoriais discretas são apenas as pontuações ou as censuras, e que o olho habita como o homem habita sua casa. O pintor só consegue pintar porque viu, pois se pode afirmar que algo só será transformado, se o pintor o fizer apoiado num motivo.

Partindo da idéia de que toda a teoria da pintura é uma metafísica, Ponty afirma que Descartes foi abusivo ao se referir à pintura, pois Descartes a considera como um modo ou variante do pensamento canonicamente definido pela posse intelectual e pela evidência. Segundo Ponty, Descartes não seria Descartes caso eliminasse o enigma da visão, pois não se pode admitir visão sem pensamento, para ver não basta apenas pensar, a visão é um pensamento condicionado; não é pensar no presente, atual; conclui-se que tudo o que se diz sobre a visão faz dela um pensamento.

“Toda a história moderna da pintura, bem como o seu esforço para desvencilhar-se do iluminismo e adquirir suas próprias dimensões, tem um significado metafísico”.

Ao pintar, cada pintor não observa somente o visível, mas acorda o invisível preexistente. Com esse mecanismo ele pode detectar a animação interna, irradiada das coisas numa profundidade viva, contudo não se pode dizer que há uma pintura universal, pois cada pintor tende a inaugurar um campo próprio, que exprime algo novo, mesmo que porventura, possa vir falar de algo já falado.

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