Merleau-Ponty informa como Cézanne se sentia quando se falava na obra dele, que para ele era a tentativa de abordar sua pintura. Cézanne trabalhava sozinho, sem alunos, sem incentivo por parte da família, não era incentivado pela crítica. Em 1870 acontece-lhe de duvidar da sua vocação, indaga se a novidade de sua pintura não provinha de um distúrbio visual, se toda sua vida não se fundamentou num acidente do corpo. Ponty nos apresenta Zola, grande amigo do pintor que o considerava como um ‘gênio abortado’ pela maneira como o avaliava o comportamento do amigo, atento ao caráter de Cézanne tratou o sentido da sua pintura como uma manifestação doentia.
Aos Cinqüenta e um anos de vida, Cézanne muda de localidade, e encontra a natureza que o torna aparentemente melhor, pois o local o remete a infância. Após ser machucado por uma criança, Cézanne se distancia das pessoas e evita o contato com elas. Devido ao afastamento ele passa a adquirir sintomas que o deixam numa constituição mórbida. Com os distúrbios nervosos Cézanne passa a apresentar uma nova forma de arte que, segundo Ponty, é válida para todos, ele pôde olhar a natureza de uma maneira especial, como só um homem sabe fazê-lo, fato que se pode afirmar que, o sentido de sua obra não deve ser determinado por sua vida.
Os contornos precisos, a prioridade da cor sobre o desenho não tiveram o mesmo sentido entre Cézanne e o impressionismo, pois não tardou logo ele se separou dos impressionistas. Embora ele quisesse fazer do impressionismo ‘algo de sólido como a arte dos museus’. Paradoxal era sua pintura: ele procurava a realidade sem abandonar as sensações, sem ter outro guia senão a própria natureza, sem delimitar os contornos, sem enquadrar a cor pelo desenho, sem compor a perspectiva ou o quadro.
Segundo Ponty, para Cézanne não havia escolha entre a sensação e o pensamento, assim como entre o caos e a ordem. Ele não separava os objetos fixos que nos aparecem ao olhar de sua maneira fugaz de aparecer, sua intenção era pintar a matéria ao tomar forma, tinha a concepção de que a ordem nasce por uma organização espontânea. No decorrer do texto, nota-se que Cézanne nunca se interessou em ‘pintar como um animal’ mas recolocar em contato como o mundo natural características que estão destinadas a compreender e confrontar como a natureza, as ciências que vieram dela.
Cézanne tinha convicção de que nada está mais distante do naturalismo do que a ciência intuitiva. Observava que a arte não poderia ser uma imitação, nem uma fabricação segundo os votos do instinto e do bom gosto. A arte é uma expressão. Para Cézanne, artista é aquele que fixa e torna acessível aos mais ‘humanos’ dos homens o espetáculo de que participam sem perceber. Cézanne considerou-se impotente porque não era onipotente, porque não era Deus e queria, contudo, pintar o mundo, convertê-lo em espetáculo. Segundo ele, um pintor só pode construir uma imagem, entretanto, é preciso esperar que esta imagem anime-se para os outros.

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